O Math

Aceitei o desafio de passar uma temporada fora e, quando percebi, estava do outro lado do Atlântico, estudando Enginyeria Mecatrònica e dividindo apartamento com 3 meninas.

Eu nunca tinha mexido com terra. Nunca mesmo.  Até sabia de onde vinham os vegetais, mas não se engane: eu era o carinha de exatas, dos cálculos e o mais próximo que tinha chego de hortas ou de botânica foi quando acertei uma questão sobre briófitas no vestibular. Só.

Math

CTO, Minhorta

Foi então que lá pela metade de 2015, com a grana cada vez mais curta, comecei a pensar em soluções para economizar. E uma delas era replantar cebolinha e alho poró, que sempre comprava para temperar o arroz. Mas eu não sabia como fazer isso. Mesmo parecendo lógico cortar a raiz e enterrá-la em uma porção de terra em algum vaso, optei por garimpar na internet cursos online (e gratuitos!) sobre hortas em casa.

Encontrei um curso da USP, de 30 horas, que devo ter feito em uma tarde. Descobri que as garrafas PET e as caixas de leite poderiam servir como vasos. E comprei um pouco de terra preparada numa venda próximo de casa. Foi aí que tudo começou.

A sensação de começar algo novo me deixou serelepe. A partir daquele momento toda moeda que sobrava no bolso era reservada para compra de sementes, mudas na feira de Sábado e terra preparada. Coincidência, destino ou só curiosidade (julgue como quiser!) comecei a ler Perdido em Marte, parte por ser um admirador nada secreto do planeta vermelho e parte por ler alguma coisa nova que não fosse Cálculo Discreto ou Eletrônica Analógica. E, pasmem, há um trecho no livro (e no filme, aposto que vocês já assistiram!) em que o Watney planta batatas em solo marciano. E por ser o primeiro a realizar tal proeza, pelas leis marítimas e etc e tal, ele é tido como o colonizador de Marte. “Ok”, pensei, “vou plantar batatas também!”. E o fiz. Batatas costumam ser fáceis de plantar e, para quem tem fome e poucos euros, é batata no café da manhã, batata no almoço e batata na janta! Sem contar que há mais combinações possíveis em “modos de preparo de batatas” do que a matemática pode calcular. Juro.

É um tal de batata frita, assada, crua, cozida, queimada, com casca, sem casca…

Foi nessa colheita de batatinhas que eu me auto-declarei O Colonizador da Varanda do Meu Apartamento Alugado. Não tive festa, não apareci no jornal, mas mesmo assim foi incrível.

E eu já estava muito empolgado. Consegui umas madeiras que estavam jogadas na rua (e provavelmente vinham da armação de alguma coisa grande) e montei uma bancadinha simples, madeira e abraçadeiras, nada mais. Achei um cone na rua, também jogado, e levei para casa o pobre coitado (sim, eu sei que você deve estar pensando em outro verbo para substituir o “achei”, mas confesso que não houve delito, foi um achado em termos legais para a comunidade européia e para minha consciência!). Pedi para as minhas companheiras de apartamento que não jogassem as caixas de leite fora e, em pouco tempo, a metade da varanda tinha sido tomada por uma invasão de vegetais: batata, cenoura, rúcula, tomate, couve, cebolinha, alho poró, salsinha, alface, brócolis e até uva!

E o que começou por acaso, numa tarde qualquer, se transformou na minha “lavoura” e a cada manhã era ao lado dela que eu tomava meu café e observava os gatinhos no telhado. As meninas faziam saladas, os vizinhos pediam um pedaço de cebolinha, eu cheguei a dar tomates de presente porque eram mais de 20 pés recheados de tomatinhos!

No começo do inverno recebi a visita da minha mãe que, com muita energia e satisfação, ajudou a criar uma pequena estufa para protegermos nossa lavoura do frio intenso. E funcionou maravilhosamente.

No final do ano, a Heloisa, que é irmã de uma das meninas que morou comigo, foi também para Vic e conheceu a lavoura. Trocamos, depois disso, algumas ideias e eu soube que ela começou uma hortinha quando voltou para Curitiba e que estava muito empolgada com a iniciativa.

Quando, por fim, retornei em Fevereiro de 2017, fui conversar com a Helo sobre uma possível ideia de espalhar aquela sensação tão gostosa que tive e perguntar se ela também pensava o mesmo sobre a sua horta. E nessa mesma época tomei um café com o Zé e conversamos sobre começar algum novo empreendimento.

Eu aceitei o desafio de iniciar algo novo e, quando percebi, estava – de novo – do outro lado do Atlântico, estudando hortaliças e discutindo sobre formas de plantar batatas com vários entusiastas de hortas.

Ali, meio sem querer, nascia o Minhorta…